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Sábado, Julho 31, 2004

3:37 PM
Quarta-feira, Julho 28, 2004
E, por falar em desordem, e em livros, eu fiquei espantada o outro dia com a quantidade de livros que eu comecei a ler e ainda não terminei por alguma razão. Porque eu parto do pressuposto de que eu vou terminar de ler todos os livros. Eu não gosto de deixar começado, mesmo que eu não esteja gostando. Sei lá, o livro pode mudar de uma hora pra outra, pode ser o meu humor também. Vários dos meus livros preferidos eu tive que começar mais de cinco vezes até engatar. Só pra dar uma idéia, tenho começados:
- Ilusões Perdidas, do Balzac. Falta pouco mais de vinte páginas. Acho que bateu um desespero com o livro depois do seminário, não tem mais aquela empatia. Mas eu vou terminar, claro. Eu já li mais de 500, o que são 20 páginas?!
- Wuthering Heights, da Emily Brontë. Desse eu só li os primeiros capítulos. Não engatei. Comecei no fim das férias de janeiro, parei, li 3 outros livros rapidinho, tentei ler de novo, e... foi pra estante. Preciso de mais dedicação com ele.
- A câmara clara, do Roland Barthes. Esse eu tenho que terminar antes de voltar às aulas. Peguei emprestado do Atílio, meu professor de fotojornalismo. É uma delícia o livro, curtinho. Falta metade, mais ou menos. Mas ele tá concorrendo com os outros, daí já viu.
- Diante da dor dos outros, da Susan Sontag. Vixi. Eu vou precisar começar a ler de novo. Li umas 15 páginas e larguei. Não sei por quê, tava gostando, e tal. E ele é curtíssimo. Dá pra ler numa sentada.
The catcher in the rye, do Salinger. Este é a bola da vez. É "o que eu estou lendo", propriamente. Mas já li o primeiro capítulo três vezes, só que agora vai.
Semana passada saíram dois artigos no nomínimo sobre isso, essa angústia de querer ler tudo. O Sérgio Rodrigues tava falando sobre o ato de "zapear" os livros.
Mais tarde fui indagar da zapofilia e comecei a ver sentido naquilo, embora continuasse chocado. "Não tenho mais tempo", disse Sérgio. Falou de seu glaucoma, das conversas com Glauco Mattoso, e eu, vinte anos mais novo e apenas míope, não pude deixar de reconhecer a familiar sensação de que nenhum de nós jamais terá tempo para ler tudo o que deveria, poderia ou gostaria -- sensação abordada esta semana por meu vizinho de ciberespaço Arthur Dapieve, em seu artigo sobre livros e estantes. É uma obviedade que, por alguma razão, nunca nos ocorre quando somos jovens: há livros demais, cada vez mais, e tempo de menos, cada vez menos. Solução não há, mas o zapping não deixa de ser uma digna resposta humana a essa perversidade de Deus.
O outro, do Arthur Dapieve, falava sobre a hierarquia das estantes. Mas é a mesma preocupação, a de não ter tempo na vida pra ler tudo. O Arthur, que antes organizava seus livros pela nacionalidade dos autores, agora faz uma hierarquia de prioridades.
Eu sempre tenho essa sensação de que não vou ter tempo suficiente pra ler tudo o que eu quero, que tem milhares de autores aí para serem descobertos, alguns de quem eu nunca ouvi falar, alguns de quem eu nunca vou ouvir falar, alguns em algumas línguas que eu não vou conseguir entender... e é um pouco desesperador tudo isso. Se eu não consigo ler nem o que está no meu armário!
Uma vez eu vi uma entrevista da Leandra Leal, em que ela dizia que tinha organizados todos os livros que ela ia ler até uns 80 anos, só com clássicos e livros que ela julgava indispensáveis. Eu lembro que achei um exagero enorme quando li, e nem sei se a Leandra ainda continua firme e forte neste propósito, mas às vezes eu tenho a impressão de que eu fico muito presa ao que eu já li e já gostei e deixo de experimentar coisas novas.
Eu tento intercalar os livros que eu já sei que vou gostar (do Gabo, do Cortázar, do Saramago...) com os indispensáveis (1984, Lolita...) e os indicados pelos amigos (The catcher in the rye, O nome da rosa...). Mas, no fundo, no fundo, eu só leio aquilo que estou com vontade de ler. Ler é uma atividade tão prazerosa que instituir qualquer burocratização ou regulamentação só estragaria.
. . .
Hoje eu recebi um email muito especial do Flávio, que chegou no blog procurando uma letra do Vinicius, e acabou descobrindo que o nosso gosto musical e literário é muito parecido. Mas um comentário dele me deixou intrigada. Ele disse que (como ele), eu sou dessas pessoas que têm saudade de uma época que não viveram. Então... eu... sou... uma... saudosista?!
Hahaha, se você estiver lendo isso agora, Flávio, não se assuste. Eu já sabia que eu era saudosista, toda vez que eu ouço Como nossos pais eu sinto um tapa na cara, e me encaixo completamente como a interlocutora do Belchior, ou da Elis, ou de quem quer que esteja cantando. E agora, com essa onda de "não vou ter tempo suficiente pra ler tudo", eu descobri que eu não sou uma saudosista, somente. Eu sou uma velha! Oh-my. Essa minha mania de fotografar velhinhos não deve passar de uma identificação com a minha faixa etária mental. Ó-quei, enough.
11:57 PM
Terça-feira, Julho 27, 2004
Minha avó, com a minha idade.
2:41 PM
Domingo, Julho 25, 2004
Este foi um fim de semana pra fuçar no "acervo" da minha casa. Ontem eu fui lá pro fundo, e resolvi remexer nos LPs dos meus pais. Eu sempre adorei a vitrolinha -- e ela funciona, sim, muito bem! -- mas nunca tinha dado a devida atenção. Cada vez mais eu me apaixono por coisas antigas, analógicas, e pego birra dessa automatiazação toda. Talvez seja a convivência com o Gui. Hmpf. Faz tempo que eu não convivo com o Gui.
Na quinta eu tinha ido ver "A Ópera do Malandro", a nova adaptação da peça do Chico Buarque no Tom Brasil com o pessoal, e fiquei encantada. Tinha várias músicas do Chico que eu sabia de cor e podia cantar junto, mas tinha outras tantas, lindas, que eu não conhecia. E eu sabia que o papai tinha o LP da peça, a de 1979.
Cheguei lá e era o primeiro da pilha. Duplo! Já pus pra ouvir enquanto garimpava nos outros. Só versão boa, com João Nogueira, Zizi Possi, Gal... tem até "O meu amor" cantado pela Marieta Severo e a Elba Ramalho, uma preciosidade. Mas achei cada coisa na pilha... vários outros do Chico, mais outros da Bethânia -- num deles ela lê um trecho de Pessoa depois lê um trecho de Clarice... você ia ter um troço, Mari!... Do Vinicius, Gonzaguinha... esses todos são do papai. Da mamãe tinha dos Bee Gees, do ABBA, do Barry Manilow (dois, Luiz!! você precisa ouvir!)... e, pasmem: um do Air Supply! Lili, você ia cair pra trás com este. Tem que vir ouvir.
E eu fiquei doida pra trazer a vitrolinha pra cá. Pena que no meu bículo não cabe mais nada. Lá no fundo tem também uma máquina de escrever velhiiiiinha, dessas com a tecla de bolinha presa numa haste (deu pra entender??), linda. Ai, ai.
Uma Canção Desnaturada
Chico Buarque
Por que cresceste, curuminha assim depressa, e estabanada
Saíste maquilada dentro do meu vestido
Se fosse permitido eu revertia o tempo
Pra reviver a tempo de poder
Te ver as pernas bambas, curuminha, batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira, e eu te negar meu colo
Recuperar as noites, curuminha que atravessei em claro
Ignorar teu choro e cuidar só de mim
Deixar-te arder em febre, curuminha,
cinquenta graus, tossir, bater o queixo
Vestir-te com desleixo, tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca, curuminha, raspar os teus cabelos
E ir te exibindo pelos botequins
Tornar azeite o leite do peito que mirraste
No chão que engatinhaste, salpicar mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias nunca ter saído
. . .
Aí hoje eu resolvi passar logo os arquivos do computador velho pra este aqui. Fazia tempo que eu tava pra fazer isso. O papai vai levar o computador velho pro tio Nelson, e ele tava aqui, só ocupando espaço (que não existe). Daí eu passei o dia gravando fotos em disquetes. Tooodas aquelas fotos que a gente tirava sempre com a digital da Lili... as pastas: "Fondue", "Dia do Pastel", "Pré-Fuvest"... mais as de Arraial, que tem fotos dela e do Luizinho, e as de Parati, que tem da Rê e do Silas. São lindas essas fotos, todas. É dificílimo descartar alguma porque não vai caber no diquete, tal...
Mas eu consegui, enfim, trazer a mobília toda pra este computador agora. Tava faltando não só o meu arquivo fotográfico, como o os meus ponteiros e ícones do Tintin, alguns arquivos... agora tá tudo certo.
. . .
Aí eu aproveitei pra instalar o scanner. Fazia tempo que o bichinho tava desativado, lá em cima do armário. E foi relativamente fácil, depois do trabalho que aqueles disquetes tinham me dado. Já escaneei algumas fotos que eu tinha tirado na rua, e ficaram boas.
O problema é que, instalando o scanner, sobra menos espaço pra uma pilha de revistas (e papéis, e livros, etc). E, lógico, isso foi estopim de mais uma revolução. Fui obrigada a arrumar todo o resto, fazer uma seleção do que vai embora e do que fica... e acabou que eu tirei uma prateleira de ursinhos da parede, e transferi os dicionários grandes pra lá, ao pé da minha cama. E arrumei todo o resto, organizadamente. Alguma coisa tem que ficar em ordem na minha vida, pelo amor de Deus.
11:46 PM
Terça-feira, Julho 20, 2004
Iracema
Adoniran Barbosa
[CLARA NUNES]
Iracema,
Eu nunca mais eu te vi
Iracema,
Meu grande amor, foi embora
Chorei, eu chorei de dor porque
Iracema,
Meu grande amor foi você
Iracema
Eu sempre dizia:
Cuidado ao travessar essas ruas
Eu falava,
Mas você não me escutava, não
Iracema,
Você travessou contramão
E hoje ela vive lá no céu
E ela vive
Bem juntinho de Nosso Senhor
De lembranças
Guardo somente suas meias
E seus sapatos
Iracema, eu perdi o seu retrato
[ADONIRAN]
Iracema, fartavam vinte dias
Para o nosso casamento
Que nóis ia se casa
Você atravessô a São João
Vem um carro te pega
E te pincha no chão
Você foi pra assistência,
Iracema
O chofer não teve curpa,
Iracema
Paciência, Iracema, paciência
2:26 PM
Quinta-feira, Julho 15, 2004
Eu estou no meio de uma desordem muito grande. De livros, de fotos, de idéias, de projetos inacabados, de planos mal-sucedidos, de planos que nem chegaram a se concretizar como planos, de desejos contidos, de desejos realizados, de deveres, de necessidades. Vontade de catalogar tudo, de separar tudo em caixinhas, pastinhas, listas, álbuns, pilhas... Ou melhor, vontade de que tudo isso se organizasse num piscar de olhos, sem precisar de esforço nenhum da minha parte.
Eu sinto falta da rotina, de acordar todo dia no mesmo horário e ouvir O Pulo do Gato com o José Paulo de Andrade, de comer mamão canoinha com müsli e pão de queijo com requeijão, de sair sempre atrasada, mas saber que tem uma aula me esperando pra quando eu chegar esbaforida. Saudade dos meus amigos falando alto, discutindo a eutanásia, a redução da maioridade penal ou Oxum. Dos passeios-nada-a-ver para o centro, pra comer pão com mortadela no mercadão ou fazer compras na 25 de março. De ficar desesperada com os trabalhos pra entregar, de entrar e sair da biblioteca vinte vezes. De ver o sol se pondo na USP, de deitar na grama, de não preferir estar em nenhum outro lugar do mundo naquele instante. E tudo isso parece que aconteceu há séculos.
. . .
Não estou me queixando, eu juro que não. Uma parte (grande) de mim está vivendo uma experiência totalmente nova, fantástica. Eu estou muito apaixonada, e isso não está sendo nem um pouco ruim (!!!). Não está me machucando, não está me deixando neurótica, nem claustrofóbica, nem nada. E eu tive a oportunidade de curtir o meu pikeno por 20 dias, enquanto os meus pais estiveram na Espanha. Nós dois estávamos com 99 pés atrás antes de embarcar na experiência. Não tínhamos nem 2 meses juntos e já íamos arriscar tudo numa imersão de night-and-day relationship. Mas foi muito bom, muito. Eu conheci um outro Ivan dentro do Ivan, e as surpresas não podiam ter sido melhores. Foi lindo cozinhar com ele, fazer compras de madrugada, dançar Billie Holiday, assistir TV, dar risada das comunidades bobas do orkut, brincar de fantasiar e maquiar o outro, tirar foto... e, mesmo nos momentos difíceis, saber que eu posso contar (meeesmo) com ele, pra me acalmar nas minhas crises, pra assumir os meus problemas como se fossem dele, pra entrar na briga junto... And after all is said and done / to think that I'm the lucky one / I can't believe you're in love with me...
. . .
E minha família voltou, o que também foi ótimo. Eu sempre sinto muita saudade. Não contei aqui no blog (mas acho que todo mundo já sabe) que meus pais foram roubados na Espanha. Alguém abriu o porta-malas e levou tudo o que estava dentro: roupas, filmes batidos, postais, presentes... Sorte que os documentos e o dinheiro estavam com eles, mas mesmo assim já é um puta susto e um puta transtorno. É foda saber que os pikenos tão passando por problemas assim, e eu não posso fazer nada. Mas, enfim... como eu tava falando pra mãe da Lili outro dia, acontece isso e a gente ainda tem que dar graças a Deus porque não foi pior. Sempre tem alguém pra lembrar que "ainda bem que eles não estavam juntos", coisas assim.
Bom, mas eles voltaram bem, cheios de histórias e de presentes (os que compraram depois, claro). Estão putíssimos com a Espanha, falando muito mal mesmo. Eu adoro a Espanha, mas eu entendo. Também fiquei com um ódio danado de Paris quando um gordinho me deu uma cotovelada no estômago porque eu estava com um mapa. Passa.
Ganhei montes de livros do Gabo e um do Cortázar. Ganhei também umas bijuterias, um pufe marroquino e umas sandalinhas marroquinas muito confortáveis. Mas o mais engraçado é ouvir a minha avó por meses contando pros outros coisas como: "Lá não se come que nem no Brasil", ou "Se fosse lá, já seriam 5 horas"...
11:58 PM
"Vez ou outra, eu falava desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci."
Roland Barthes, A câmara clara
10:39 PM
Segunda-feira, Julho 12, 2004

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