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Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
diva
cesar costa filho e aldir blanc
diva
trouxeste a vida e a vida
te levou
deixando em vão
o devaneio
triste dia
chovia, e diva
te dividias
devagar: mulher e nuvem
diva
te devo a vida, e a vida
deve a mim
a tua voz
que me implorava amor
eu ouvia
te dava, e diva
não duvidavas
que eras dívida
e dádiva
diva
a vida é dádiva, dívida
é devaneio
a vida me deve diva, ô
quero diva de novo
num dia de chuva
diva
sei que a vida é dividir
e duvidar
diva, divina, nuvem
dividida
ô, diva:
divina, nuvem, dividida
. . .
César Costa Filho é descoberta de 2006. Papai encasquetou com uma música dele (não era essa, Diva), só lembrava de um trechinho. Não se conformava que não dava pra achar na internet. Mas dar dá, sempre dá, e eu dei um jeito e achei. A música era Anastácio -- Samba-enredo para um sambista morto, bacana também. Só que até chegar nela, baixei tudo quanto é música do César, virei uma especialista. A pérola mesmo é essa, Diva, com essas aliterações todas, e a chuva, e a nuvem, ai.
E essa tarde chuvosa, linda, cheiro-de-terra. Vou fingir que hoje é ontem e desenhar as pernas inteiras de caneta bic, como eu fazia até poucos anos atrás, quando esqueci que era gostoso. E depois tomar banho, e lavar com bucha, e fazer espuma azul.
4:30 PM
Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
"-- Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existissem espelhos. Você teria sonhado com seu rosto, o teria imaginado como uma espécie de reflexo exterior daquilo que se encontra em você. E depois, suponha que com quarenta anos tenham lhe estendido um espelho. Imagine seu espanto. Teria visto um rosto totalmente estranho. E compreenderia nitidamente aquilo que recusa a admitir: seu rosto não é você.
(...)
-- Nosso nome, também, vem por acaso, prosseguiu ela, sem que saibamos quando apareceu no mundo, nem como um nosso desconhecido antepassado o conseguiu. Não compreendemos absolutamente este nome, não conhecemos sua história, e mesmo assim o usamos com grande fidelidade, nos confundimos com ele, gostamos dele, somos ridiculamente orgulhosos dele, como se o tivéssemos inventado num lance de genial inspiração. Quanto ao rosto, é a mesma coisa. Lembro-me, isso deve ter acontecido no fim de minha infância: de tanto me olhar no espelho, acabei chegando à conclusão de que o que eu via era eu. Tenho uma vaga lembrança dessa época, mas sei que descobrir meu eu deve ter sido inebriante. Mais tarde, porém, chega o momento em que nos olhamos no espelho e dizemos: será que sou eu mesmo? E por quê? Por que devo ser solidário com isso aí? Que me importa esse rosto? E a partir daí tudo começa a desmontar. Tudo começa a desmontar."
Agnes para Paulo. A Imortalidade. Milan Kundera.
. . .
Eu digo que ele adivinha o que eu penso, as conversas, tudo. Mas essa parte aí é pra você.
2:07 PM
Sexta-feira, Dezembro 15, 2006
[post pensado enquanto eu nadava, há exatamente uma semana]
desde que eu resolvi nadar porque eu resolvi nadar, nadar virou um dos momentos mais prazerosos da semana. ninguém pra me mandar fazer nada, eu faço o que eu quero, quantas vezes eu quero, no ritmo que eu quero, e sem pensar em nada. nas duas primeiras vezes, tentei contar as chegadas, depois resolvi chutar o balde, e tem sido bem melhor. nado entre 45 minutos e uma hora e meia, toda sexta no fim da tarde, começo da noite. mas o mais especial, o mais especial mesmo, é que eu nado sem lentes de contato. aposentei as lentes desde março (e já estou pensando em comprar pelo menos uma caixinha, mas isso é outra história), e não dá pra nadar com os óculos de grau por baixo dos de natação. fazer um óculos de natação de grau é algo além das minhas expectativas, e, além disso, é um prazer.
eu e minha miopia, na água. nem escutar direito eu escuto, nem a rádio pop me incomoda, nada me incomoda, nada. a água macia, crawl, peito e costas, sem borboleta que eu não gosto. e quando eu começo a ficar cansada é que fica mais gostoso. e vai ficando tarde, e as pessoas vão saindo, e eu vou fazendo os gestos cada vez mais amplos, sem me preocupar se tá certo ou se não tá. com os dedos das mãos e dos pés abertos, os braços espalhados, tudo errado, tudo gostoso, só gostoso. e vai quando vai dando a hora que eu planejei sair, eu faço pelo menos umas três chegadas "essa é a última". mas aí eu decido terminar com crawl. só mais uma de peito pra relaxar. uma de costas, vai. ok, só mais uma de crawl e eu saio. e eu saio, e, deus, como eu sou pesada fora da água. os gestos perdem a graça. falta resistência, no ar. e vem o chuveiro com uma água dura e pesada, não macia como a da piscina. e depois a corridinha pra casa, num ar tão sem resistência, e tão ligada ao chão que eu estou. agora, já enxergando.
5:35 PM
Terça-feira, Dezembro 12, 2006
mais aqui.
4:02 PM
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